Não me lembro bem a primeira vez que te vi. Só guardei a insatisfação que sua presença me causou. Garoto chato. Garoto bobo. Pensei repetidas vezes. Pra cada encontro uma certeza. Ele se destacava na multidão, um daqueles seres insuportávelmente únicos. Na sua chatisse ou na sua beleza. Tempo caminhando, fomos nos aproximando. Certas coisas foram feitas pra darem certo um dia, lembra disso?! Pois, lá fui eu e meu coração idiota ser dilacerado de novo. Tenho um coração tão competente nisso que nem me surpreendo mais. Ele sabe fazer a diferença. Eu e o chatinho, o bobinho... Nos tornamos amiguinhos. Ele foi o primeiro homem pra quem eu disse eu te amo. Ainda pensei duas vezes antes de mandar essa mensagem no aniversário dele. Mas achei tão apropriado e não tinha perigo algum. Éramos amigos, falávamos sobre tudo. Qualquer coisa, qualquer hora. Todos os dias. Dividíamos todos os momentos. E sem preceber começamos a dividir a vida. Era beijo pra cá, beijo pra lá, um cheiro, um abraço, um aperto. Um colo. Um afago. Mãos que se entrelaçavam. Cumplicidade. Carinho. Respeito. Gratidão. Solidariedade. Amor. Amor. Ah o amor! Até que um dia foi olho no olho, o abraço virou um aperto, o cheiro um tesão. Uma onda de calor foi subindo como se as mãos dele fossem brasa. Senti todo meu corpo estremecer. Terremoto à vista. Pare essas sensações que eu quero descer. Perdi o ponto. Atravessei as linhas inimigas. Perdi o ponto. Estraguei tudo, mais uma vez. Só queria poder olhar meu amigo como antes. Sou boa nisso. Meu ponto forte são boas amizades. Meu dedo podre errou a vez. Meu cupido enlouqueceu de vez. Papai noel leu a carta errada. Estaria Deus tão ocupado assim? Quero meu amigo de volta, preciso dele urgente. Preciso contar coisas inúteis e bobas da minha semana. Contar sobre meu paquera da vez. Que minha amiga vai casar e eu continuo encalhada, quero ouvir a risada dele quando eu disser isso. Quero que ele me conforte sobre isso. Mas agora não tenho nada. Só um silêncio entre nós. Estamos em pé de guerra. Qualquer coisa dita de forma errada, na hora errada. Buuuuum! Catástrofe. Fico escolhendo as palavras. Ele não me olha direito. Nossas mãos ficam perdidas. E aquela vontade louca de ter tudo outra vez. De fazer coisas novas. Sem você sou aquela mulher triste que insiste em ser feliz. Com você sou a mulher feliz que insiste em ser triste. Quem é você sem mim?Thaise Moraes
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